Numa noite de janeiro

Chovia. E a chuva era minha desculpa pra enfiar as mãos desconfortáveis (estavam vazias) no bolso (estava vazio, a despeito de enchê-lo as mãos).

O coração não ia vazio. Seria melhor se fosse.

Eu estava sozinha, mãos vazias, bolsos vazios, sob a chuva. A noite tinha uma neblina cor de rosa que me entristecia e eu sentia que podia continuar caminhando madrugada adentro, indefinidamente – nada aconteceria. Houve um tempo em que eu tinha a crença ingênua de que escolher um caminho diferente já seria se arriscar, oferecer-se ao inusitado, ao incrível. Mas quem tem as mãos vazias, os bolsos vazios e o coração esvaziado de coisas boas não tem nada a arriscar e nada a oferecer. De modo que eu continuava a andar indefinidamente e sem rumo, de madrugada, sob a chuva fina, sem ter sequer um sentimento de medo para me distrair da minha tristeza morna e mesquinha.

Tirei as mãos do bolso e cruzei os braços para me encolher melhor. Não era difícil, pois eu já andava curvada desde que descobrira ou inventara para meu uso esta verdade simples:

Todo diálogo é impossível. Uma mentira inalcançável como o amor e o sagrado.

Cruzei os braços e de repente estar com os braços cruzados me parecia um arremedo ridículo de abraço. Encasulava-me.

Encasulava-me, mas não tinha quaisquer ilusões de, com isso, me metamorfosear em borboleta.

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~ por Thaís Emília em 27/02/2010.

2 Respostas to “Numa noite de janeiro”

  1. lindas tuas palavras…

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