A carona

Esta ainda não é a versão definitiva deste relato, cuja publicação é, acredito, parte do próprio processo de revisá-lo e reescrevê-lo.

Esperávamos no carro quando o último passageiro chegou. Ao mesmo tempo em que enfiava as malas no bagageiro, ele cumprimentou o motorista e a outra menina pelo nome, confirmando minha suspeita de que todos ali se conheciam, menos eu. Eu estava mal-humorada devido ao atraso de mais de duas horas entre o horário combinado e o que o relógio marcava quando finalmente colocamos os cintos de segurança e rumamos para a rodovia, mas pelo visto eu era a única pessoa mal-humorada ali.

Logo os três engataram uma conversa cheia de adjetivos, diminutivos, exclamações, tenho até mesmo a impressão de ter escutado várias onomatopeias. Falaram do trabalho (trabalhavam juntos, e dava para perceber que eram os primeiros dias em seus primeiros empregos), dos planos para fazer mestrado, de exposições de arte, de baladas (ainda iam a festas de república, mesmo convencidos de que muita coisa mudara desde sua própria e recém-encerrada época de faculdade).

Quem nos visse viajando juntos, roupas coloridas e mochilas, poderia pensar que estávamos no mesmo momento de nossas vidas, e incorreria assim em um erro grosseiro.

O cara que chegara por último se sentara ao meu lado no banco de trás e era tão jovem, entusiasmado e empolgado que ou ignorou ou sequer chegou a perceber meu mau humor:

– Como é o nome da mocinha que está viajando com a gente?

A resposta estava na ponta da língua: “Obrigada pelo mocinha, mas acho que sou mais velha que todos vocês aqui. (Pausa estratégica). Vocês exalam juventude”.

– Laís?

– Thaís – repeti.

– Você usa o cabelo da Amelie Poulain.

Olhei para ele sem me virar, o que provocou o seguinte comentário hesitante:

– Você sabe, aquele filme… você assistiu esse filme, né?

Certas pessoas simpáticas são tão inatingíveis que me parecem embrulhadas em múltiplas camadas de plástico-bolha. Eu sempre sinto vergonha de mim mesma ao lado delas. Portanto, após vinte quilômetros de silêncio, eu desejei sinceramente ser mais agradável e voltei a exibir a simpatia que me é característica. Risos.

A conversa seguiu sua coreografia sem ensaio: bebidas, amigos, cachorros, casamentos wicca, viagens, fotografia. E, num desses rodopios e volteios, ficamos sabendo (era novidade também para os seus companheiros) que o retardatário era não só espírita como também médium. E que descobrira seu dom e, consequentemente, um motivo para se converter ao espiritismo após seu primeiro contato com um desencarnado.

– Sei lá… eu fico realmente feliz por saber que isto não é tudo, sabem? Que há outras vidas depois desta.

Espalhou-se pelo carro um silêncio compacto, quase sólido, quase tangível. Não o expulsou nem sequer um daqueles típicos “É… é verdade mesmo” que pontilham diálogos de elevador e trocas de impressões sobre o clima.

Não tenho ideia sobre os motivos que levaram o motorista e a outra menina a não dizerem nada. Quanto a mim, fiquei calada porque, ao contrário do que acontecia com o médium, a imortalidade, ainda que hipotética, me angustiava. Naquele momento, e ainda hoje, eu abdicaria alegremente de toda eternidade, apenas para garantir minha libertação de um sofrimento cuja origem desconheço, cuja origem desconfio mesmo que seja inexistente. Às vezes, acho que ser mal-humorada nem é o maior problema. Às vezes, acho que o principal é que já me cansei.

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~ por Thaís Emília em 28/02/2010.

4 Respostas to “A carona”

  1. obrigada por, finalmente, compartilhar sua veia literária.
    sou sua fã, thais emilia!

  2. Thaís Emília, este seu post teve o inesperado poder de fazer eu me sentir um bocadinho menos só neste mundão de meu deus. Rs. Obrigada.

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