Relato sem maiores interesses

Tarde de outono, um domingo tão ensolarado e fresco que parece ter sido inventado ou resgatado dos porões da memória, com aquele verniz luminoso que têm as lembranças imprecisas, feitas muito mais de sensações do que de informações concretas.

Eu seguia pela rua ruminando o recém-assistido filme sobre o Chico Xavier, e me sentia leve ao percorrer as ruas em Bauru nas quais resiste o paralelepípedo, as flores baldias em varandas varridas, as janelas fofocando sobre o interior dos cômodos, sobre a vida secreta dos moradores que diariamente as abrem e as fecham. À minha frente, balançando muito os braços como se isso lhe garantisse impulso, ia uma menina com cabelos na altura dos ombros.

Seguimos pelo mesmo caminho durante cinco quadras e a coincidência dos nossos percursos começava a me incomodar, me obrigando a intercalar pensamentos sem nenhuma relação (“sim, o mundo precisa de histórias felizes”, “essa menina vai pensar que está sendo seguida”, “de fato, não há diferença entre socialismo e solidariedade”, “vou virar na próxima esquina e fazer um caminho diferente do dela”). Antes que a próxima esquina chegasse, seu celular tocou e ela o atendeu ao primeiro toque, gritando: “Eu te dou um minuto, tá entendendo? Tô indo pra casa da sua vó ver o jogo e se você preferir ficar aí com o Mel, já era! Já era, entendeu? Te dou um minuto!”. Eu, que não gosto de presenciar arroubos alheios de completos desconhecidos, já a ultrapassara e ia dobrar a esquina quando ela me chamou: “Moça!”. Eu me virei e vi que seus olhos combinavam com o verde da blusa. “Você sabe onde fica o Confiança?” Bom, na verdade o Confiança era bem longe de onde estávamos. “Confiança, não, era outro nome… Paulistão!”. Apontei a grade azul duas quadras à nossa frente e disse que era só seguir reto e cruzar a avenida. Ela agradeceu sorrindo, o que diminuiu ainda mais os seus olhos inchados, e eu continuei meu caminho, dobrando de fato a já referida esquina. Quando quis atravessar a rua e me virei para ver se vinha algum carro, vi que a menina de blusa verde seguia em passos rápidos pela mesma calçada que eu, muitas quadras à frente, de costas. Ia num sentido completamente oposto ao que eu lhe indicara para chegar ao Paulistão.

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~ por Thaís Emília em 11/04/2010.

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