A involuntária aventura do pequeno jabuti

Imagine morar no alto do morro mais alto de uma cidade pequena, em uma chácara sem vizinhos na qual as árvores recém-plantadas não contribuem em nada para a ilusória privacidade dos moradores das cidades pequenas. Pois foi para o alto desse morro que nos mudamos em 1998, no mítico Caconde: um lugar de onde víamos toda a cidade e de onde éramos vistos pela cidade toda.

Durante o inverno, mesmo com as férias de julho, a gente acordava antes das seis para derreter a geada que cobria as mudas de espatódias, quaresmeiras, murtas, roseiras, flamboiants, jabuticabeiras.

E lá estávamos nós, entendendo-se por nós eu e meus três irmãos caçulas, em uma quase madrugada de julho, regando as plantas para evitar que morressem congeladas, quando olhamos um pra cara do outro e ao mesmo tempo nos demos conta: o jabuti! Tínhamos um jabuti filhote, que cabia na palma da mão e que passava os dias esquentando-se ao sol no jardim e as noites dentro de casa, protegido do frio. Mas ninguém se lembrava de ter recolhido o jabuti na noite anterior.

Fomos até o seu cercadinho e lá estava ele, com os olhos arregalados, inerte, todo branco de geada, mortinho da silva. E eis quatro crianças (na verdade, três crianças, eu já era meio grandinha) chorando juntas aos berros de “Ele morreu! E agora? Ele morreu!”.

Minha mãe conseguiu nos arrastar para dentro ao mesmo tempo em que a Tânia, que trabalhava lá em casa, chegava esbaforida para ver o que acontecera. A vizinhança inteira, inclusive ela, tinha ouvido nosso escândalo. E então ela nos mostrou, da janela, a multidão de curiosos encolhidos de frio que espiava do morro mais baixo e cheio de casinhas ao lado de casa. E ela mesma foi até eles esclarecer a confusão, para decepção de quem esperava uma boa fofoca para engolir com o café da manhã.

Quando demos a notícia por telefone ao meu pai, que é veterinário e estava pescando em algum rincão ainda mais obscuro do que Caconde, ele nos lembrou que jabutis são animais de sangue frio, e que provavelmente um banho quente reanimaria o coitado, se ainda não tivesse sido enterrado. Por sorte não fora. Esquentamos a água e, cheios de expectativa, a despejamos sobre o seu casco pequenino, pintado de marrom e amarelo.

Das ruas do morro vizinho espocaram palmas e vivas quando a gente anunciou, ao mesmo tempo em que o pobre jabuti piscava os olhos: “Ressuscitou!”

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~ por Thaís Emília em 12/04/2010.

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