Confissões

•25/04/2010 • 1 Comentário

Minha última aquisição literária foi Cascata de Cuspe, de João Roberto Marinho, pescada entre os títulos empoeirados e pretensamente ordenados por sobrenome de autor do sebo do Bau. Me dirigi ao caixa e a vendedora me disse, em tom de confidência: “Ai, eu também adoro as aventuras da turma do Gordo, confesso”.

“Confesso”, minha senhora? Engraçado essa galera que rotula com um “confesso” declarações que não trazem nenhum risco moral. Confissão que se preze tem que manchar sua reputação, minha senhora, ainda que reputação seja uma grande bobagem, arriscável quando os outros descobrem que:

Eu li e reli todos os livros do Harry Potter. Estou esperando a próxima grande promoção do Submarino para comprar a coleção completa, que ocupará lugar de honra na minha estante: ou seja, o lugar mais acessível.

Eu assisto à trilogia d’O Senhor dos Anéis todas as vezes em que é reprisada, ainda que seja exibida a versão dublada.

O disco que eu mais ouvi nesta semana foi O Descobrimento do Brasil – Legião Urbana, que por sinal ainda não saiu da playlist para os próximos dias.

Crônica fútil

•21/04/2010 • 2 Comentários

Perder peso é a mais óbvia das obsessões modernas – até quem não precisa quer. Eu estou na direção oposta: quero engordar. Peso 43 quilos e pretendo chegar aos 50, medida que faz meus interlocutores arregalarem os olhos em reprovação: “Também não precisa exagerar, né? Assim você vai ficar gorda!”. Mas eles não precisam se preocupar: eu não engordo um quilo sequer, apesar das tentativas. Ou, quando engordo, perco a troco de nada: uma gripe à-toa, dessas tratáveis com mel-e-limão, só vai embora depois de me levar uns bons centos de gramas, que eu levo semanas para recuperar – quando recupero.

E os entusiastas do peso-pena, que veem neste meu metabolismo atrapalhado um motivo de inveja, me alfinetam o tempo todo para que eu mude de assunto, como se no fundo eu estivesse me gabando das calças que não servem: caem. Eu até pararia de falar disso, mas me sinto na obrigação de contabilizar quanto peso perdi toda vez que um deles, com a maior insensibilidade, vem se lamentar: “Engordei mais de um quilo só neste final de semana!”. Ah, você engordou, é? Pois eu emagreci.

A pedra filosofal

•21/04/2010 • Deixe um comentário

Espero o carro passar e atravesso a rua; a caminhada é curta até meu destino. Depois de duas quadras varridas de sol, chego à calçada à frente do terreno baldio. De uma fenda no cimento, ergue-se esguio o caule da planta, e apenas se desespreme da avareza do vão para se ramificar com avidez, esférica de tantas folhas, brotos e botões. Está acesa, vestida de verde e laranja, as pétalas ajoelhadas ao redor dos estames, em reverência, e convive pacificamente com as ervas daninhas que acarpetam o concreto. Escolho a flor maior, só não peço licença porque pedi-la não tornaria mais delicada a minha transgressão, tiro do bolso a tesoura e corto o ramo com a eleita. Não há ninguém na rua para julgar-me louca ou esquisita. Levo a flor nas duas mãos como se ela tivesse asas e pego o caminho de volta pra casa.

Em cima da mesa, há uma garrafa vazia de suco de uva, feita de vidro verde trabalhado. Encho-a de água e coloco nela a flor, que se acomoda, gira em meio círculo e vira as costas para mim. Com a flor roubada em seu vaso improvisado, tudo está pronto. Olho em volta para ver se surpreendo a transformação em curso. Há uma toalha de algodão florido sob a garrafa, sobre a mesa. No sofá, a manta de tear comprada na primeira vez em que fui à praia. A luz do sol entra cor de rosa, filtrada pela cortina axadrezada da cozinha. Há os livros preferidos quase bagunçados na estante, gente feliz nos porta-retratos, roupa de cama cheirando a lavanda no quarto. E há a flor, cor de laranja, em uma garrafa verde como seu caule, sobre a mesa. Mas transformação alguma se anuncia: atrás da cortina há apenas vidro, debaixo da toalha granito frio, sustentando as prateleiras tijolos. É. No fundo, eu já sabia que era mais complicado do que virar metal em ouro a alquimia necessária para fazer de lar um endereço.

A involuntária aventura do pequeno jabuti

•12/04/2010 • Deixe um comentário

Imagine morar no alto do morro mais alto de uma cidade pequena, em uma chácara sem vizinhos na qual as árvores recém-plantadas não contribuem em nada para a ilusória privacidade dos moradores das cidades pequenas. Pois foi para o alto desse morro que nos mudamos em 1998, no mítico Caconde: um lugar de onde víamos toda a cidade e de onde éramos vistos pela cidade toda.

Durante o inverno, mesmo com as férias de julho, a gente acordava antes das seis para derreter a geada que cobria as mudas de espatódias, quaresmeiras, murtas, roseiras, flamboiants, jabuticabeiras.

E lá estávamos nós, entendendo-se por nós eu e meus três irmãos caçulas, em uma quase madrugada de julho, regando as plantas para evitar que morressem congeladas, quando olhamos um pra cara do outro e ao mesmo tempo nos demos conta: o jabuti! Tínhamos um jabuti filhote, que cabia na palma da mão e que passava os dias esquentando-se ao sol no jardim e as noites dentro de casa, protegido do frio. Mas ninguém se lembrava de ter recolhido o jabuti na noite anterior.

Fomos até o seu cercadinho e lá estava ele, com os olhos arregalados, inerte, todo branco de geada, mortinho da silva. E eis quatro crianças (na verdade, três crianças, eu já era meio grandinha) chorando juntas aos berros de “Ele morreu! E agora? Ele morreu!”.

Minha mãe conseguiu nos arrastar para dentro ao mesmo tempo em que a Tânia, que trabalhava lá em casa, chegava esbaforida para ver o que acontecera. A vizinhança inteira, inclusive ela, tinha ouvido nosso escândalo. E então ela nos mostrou, da janela, a multidão de curiosos encolhidos de frio que espiava do morro mais baixo e cheio de casinhas ao lado de casa. E ela mesma foi até eles esclarecer a confusão, para decepção de quem esperava uma boa fofoca para engolir com o café da manhã.

Quando demos a notícia por telefone ao meu pai, que é veterinário e estava pescando em algum rincão ainda mais obscuro do que Caconde, ele nos lembrou que jabutis são animais de sangue frio, e que provavelmente um banho quente reanimaria o coitado, se ainda não tivesse sido enterrado. Por sorte não fora. Esquentamos a água e, cheios de expectativa, a despejamos sobre o seu casco pequenino, pintado de marrom e amarelo.

Das ruas do morro vizinho espocaram palmas e vivas quando a gente anunciou, ao mesmo tempo em que o pobre jabuti piscava os olhos: “Ressuscitou!”

Relato sem maiores interesses

•11/04/2010 • Deixe um comentário

Tarde de outono, um domingo tão ensolarado e fresco que parece ter sido inventado ou resgatado dos porões da memória, com aquele verniz luminoso que têm as lembranças imprecisas, feitas muito mais de sensações do que de informações concretas.

Eu seguia pela rua ruminando o recém-assistido filme sobre o Chico Xavier, e me sentia leve ao percorrer as ruas em Bauru nas quais resiste o paralelepípedo, as flores baldias em varandas varridas, as janelas fofocando sobre o interior dos cômodos, sobre a vida secreta dos moradores que diariamente as abrem e as fecham. À minha frente, balançando muito os braços como se isso lhe garantisse impulso, ia uma menina com cabelos na altura dos ombros.

Seguimos pelo mesmo caminho durante cinco quadras e a coincidência dos nossos percursos começava a me incomodar, me obrigando a intercalar pensamentos sem nenhuma relação (“sim, o mundo precisa de histórias felizes”, “essa menina vai pensar que está sendo seguida”, “de fato, não há diferença entre socialismo e solidariedade”, “vou virar na próxima esquina e fazer um caminho diferente do dela”). Antes que a próxima esquina chegasse, seu celular tocou e ela o atendeu ao primeiro toque, gritando: “Eu te dou um minuto, tá entendendo? Tô indo pra casa da sua vó ver o jogo e se você preferir ficar aí com o Mel, já era! Já era, entendeu? Te dou um minuto!”. Eu, que não gosto de presenciar arroubos alheios de completos desconhecidos, já a ultrapassara e ia dobrar a esquina quando ela me chamou: “Moça!”. Eu me virei e vi que seus olhos combinavam com o verde da blusa. “Você sabe onde fica o Confiança?” Bom, na verdade o Confiança era bem longe de onde estávamos. “Confiança, não, era outro nome… Paulistão!”. Apontei a grade azul duas quadras à nossa frente e disse que era só seguir reto e cruzar a avenida. Ela agradeceu sorrindo, o que diminuiu ainda mais os seus olhos inchados, e eu continuei meu caminho, dobrando de fato a já referida esquina. Quando quis atravessar a rua e me virei para ver se vinha algum carro, vi que a menina de blusa verde seguia em passos rápidos pela mesma calçada que eu, muitas quadras à frente, de costas. Ia num sentido completamente oposto ao que eu lhe indicara para chegar ao Paulistão.

Descobertas fúteis

•08/04/2010 • 4 Comentários

Uvas-passas em embalagens de papel que lembram caixas de estalinho – ou aqueles berços pequeninos em que vinham as bonecas Fofolet. Ameixas secas da SunSweet, à venda sob um slogan com o qual concordo inteiramente, inteiramente: “better than fresh fruit. better than apples” – perdem apenas para as ameixas secas pretas e enrugadas que enfeitavam os manjares da minha avó e dos quais resta um rascunho infiel, imortalidade frustrada na receita registrada em um caderninho. Uma foto de alguns anos atrás (jamais saberei dizer quantos, embora sejam poucos) com a estampa de um sorriso que mesmo desatualizado e imóvel me enche de inútil ternura – nunca saberei para quem ele sorria, nem quem são as pessoas ao seu lado.

Frustração

•07/04/2010 • 1 Comentário

Sentou-se sozinho em um dos bancos do parque. O lago, rendido às carícias da ventania, arrepiava-se em marolas, debaixo das quais as tilápias seguiam bailando em um palco de lodo. Ventinho promíscuo, que lambia lago, árvores e gramado numa orgia que não enciumava a nenhum dos participantes. Mas para ele nem o vento reservava ternuras: embaraçava seus cabelos mal-cuidados como o saci de sua infância fazia com a crina dos cavalos. Sorriu um sorriso feio e triste ao surpreender na ponta da língua, entre as papilas encharcadas de sal morno, a desculpa perfeita, dedo à espera no gatilho: “É só um cisco no meu olho”. Mas ninguém o surpreendeu em meio à ventania para perguntar se ele estava chorando.